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Antes mesmo de começarmos o Trekking Cedros Alpamayo, Renan já estava empolgado pra fazer a próxima alta montanha. Tínhamos feito o Nevado Mateo (5.150m)  com nossos amigos escaladores Reginaldo e Leandro que nos deram dicas de encordamento, técnicas e segurança no gelo. Eu Vanessa estava um pouco apreensiva, pois no ano passado tínhamos ido com um guia e não conseguimos chegar no objetivo, passamos mal da altitude. Consegui convencê-lo de fazermos mais um trekking antes de nos aventurarmos em mais uma alta montanha, fizemos 6 dias de trekking com quase 5000m de aclive. E aí chegamos em Huaraz mais preparados e aclimatados para esse desafio.

Na minha cabeça antes de fazer o Nevado Mateo com os nossos amigos, imaginava que uma alta montanha sozinhos era praticamente impossível. Teria que ser feito com um guia muito experiente, que já tivesse feito muitas montanhas de altitude. E depois que aprendemos as técnicas e equipamentos de segurança, assistimos vídeos e relatos do Nevado Pisco, nos sentimos mais confiantes para ir adiante. Mesmo assim, o friozinho na barriga e a ansiedade era constante. Pensamos: ”Vamos até onde conseguirmos”.

O Nevado Pisco fica na Cordilheira Branca dentro do Parque Nacional de Huascarán. Tem uma altitude de 5750m e é considerada de nível ”fácil” para escaladores de alta montanha. Você chega ao seu cume caminhando, a maior parte não é inclinado e  não é técnico. A dificuldade maior é  a ”morena” ( Percurso com pedras soltas, onde antigamente havia neve) que é extensa, assim como o glaciar. Tem a questão também da altitude que dificulta por causa da falta de oxigênio. São 3 dias de duração. Primeiro é feito o trekking até a base do nevado, onde descansamos na primeira noite e só então na segunda noite é que iniciamos o ataque. A vista que se tem do cume é de 360° da Cordilheira Branca, dos Huandoys, o impressionante Chacraraju ao oeste, Chopicalqui, Pirámide de Garcilaso, Artesonraju ao norte, Alpamayo e ao sul Huascarán.

Vista do camping base e Refúgio

É muito importante estar bem aclimatado para fazer essa alta montanha, assim como a alimentação deve ser leve. O melhor período para a ascensão é de maio à setembro. Uma curiosidade é que o nome ficou conhecido como Pisco, pois os primeiros exploradores celebraram a conquista bebendo o tradicional PISCO, bebida muito apreciada no Peru.

Dia 1 – 15 de agosto , quinta feira – Huaraz – Yungay – Llanganuco, Quebrada para Camping base Pisco.

Saímos de Huaraz às 8h da manhã na estação dos colectivos. De mochilas prontas pegamos o primeiro que ia até Yungay. Depois pegamos um táxi privativo. Após  4 horas de viagem chegamos ao início da trilha, em Llanganuco. Na primeira bifurcação pegamos à esquerda para o camping base Pisco.

Começamos a caminhada  próximo do meio dia, com a mochila cheia de equipamentos de trekking e alta montanha. Foram cerca de 3km e 730m de ascensão. Com mochilão pesado e o sol forte foi puxado chegar até o camping base no primeiro dia.

Cansada já no começo! rsrs

Pelo menos teríamos meia tarde, 1 noite e 1 dia inteiro de descanso e preparação para a subida. Muitas pessoas  que já tinham feito a ascensão ou pelo menos tentado no dia anterior, passaram por nós na descida. No percurso haviam muitos trekkers  com guias e mulas carregando suas mochilas.

No caminho, Vista dos Nevados Huascarán Norte ( 6655m) e Sul ( 6757m), Montanhas mais altas do Peru e o quinto mais alto do continente americano.

Quando chegamos no acampamento, depois de uma intensa subida em ziguezagues (que já conhecíamos), com vistas impressionantes para outros nevados, chegamos no acampamento à 4500m.

Lá próximo há um refúgio completo, com banho quente, quartos, serviço de alimentação, um luxo de montanha. Até cogitamos a ideia de ficar lá, porém os preços estavam bem salgados e como estávamos de mochilão, tentamos fazer da forma mais econômica possível.

Camping base Nevado Pisco

Encontramos um guia e o cozinheiro  Andreas (que foi o mesmo da travessia de Huayhuash) da agência Scheler Trek. Eles estavam com 2 espanhóis que iriam ascender o nevado na mesma madrugada. Montamos nossa barraca e fomos conversar um pouco com eles em sua ”carpa comedouro/cozina”(barraca de alimentação). Tomamos um chá de coca e trocamos ideia sobre as montanhas do Peru. Vimos que o guia Sebastian realmente conhecia cada cantinho dos andes peruanos, até os locais menos conhecidos. Voltamos a nossa barraca para fazer uma sopa leve de legumes (recomendado para quem faz alta montanha) e logo apareceu um casal e montou a barraca próximo da gente. A moça veio nos pedir um pouco de protetor solar emprestado e prontamente como tinha 2, ofereci 1 para ela e disse que depois  da ascensão poderia deixar perto da barraca, em baixo do avanço. A partir dali começamos a conversar e descobrimos que os dois eram argentinos ”super buena onda” de Buenos Aires, escaladores e já tinham feito algumas outras montanhas nevadas ali no Peru. Também tinham agência de turismo. Nos identificamos com eles e depois fomos conhecer sua ”casita” (barraca) no outro lado das pedras.  A noite foi chegando e a paisagem na nossa barraca estava incrível. Para o outro dia, na ascensão, marcava céu limpo, lua cheia e pouco vento, estávamos empolgados!

”Paisage hermosa de nuestra carpa” Destaque para o nevado Pisco, Já visualizando o cume!

Dia 2, 16 de agosto -Sexta feira – Descanso e preparação para o Ataque ao nevado!

Acordamos tranquilos nesse dia, às 8h. Os espanhóis junto ao guia já estavam a tempo na ascensão, desde às 1h da madrugada. Levamos nosso café e nos  juntamos ao nosso amigo cozinheiro Andreas que estava sozinho. Antes de irmos ao Pisco, já tínhamos conversado com Scheler, o qual também alugamos os equipamentos e como somos parceiros, ele mesmo tinha avisado para dar uma atençãozinha para nós dois, pois sabia que era nossa primeira vez em alta montanha solos. Ficamos um tempo ali comendo e conversando, logo saímos da barraca e vimo que mais alguns chegaram no acampamento. Eram 4 brasileiros lá de Minas Gerais ”capixabas” com um guia peruano. Conversamos com eles e descobrimos que essa galera tinha em torno de 18 à 20 anos e que antes dessa ascensão fizeram a travessia Huayhuash auto suficiente em 8 dias e o nevado Mateo. Com certeza estavam preparados para essa indiada. E iriam atacar o cume na mesma noite que a gente.

Nesse dia praticamos mais de encordoamento e quando o guia Sebastian,chegou ali pelas 14 h com os 2 clientes espanhóis, foi muito atencioso e nos deu mais algumas instruções e recomendações da rota que foram muito importantes.

Almoçamos um delicioso macarrão com molho e passamos o dia nos hidratando, comendo pouco e descansando na barraca. O final de tarde chegou e a ansiedade começou a tomar conta.

Jantamos próximo a barraca de nossos amigos argentinos e capixabas, trocamos uma ideia, combinamos de estar próximos e fomos dormir. Às 23:30 tomamos o chá madrugador e mais um cafezinho com bolachas e partimos para o grande desafio.

O QUE LEVAMOS NA MOCHILA

Para esse ataque de 12 horas, cada um levou na mochila: um kit lanche com sanduíche, bolachas e castanhas, uma garrafinha de água, kit primeiro socorros, bloqueador solar, chapéu, bandana, óculos de sol, sacolinha, papel higiênico, crampons, piolets, bota para alta montanha, celular, pilhas extras e gopro para as fotos ( na mochila do Renan mais uma corda de 30 metros).

O QUE VESTIMOS

Vestíamos uma calça de trekking, camisa dry fit,meias grossas, uma blusa térmica e uma jaqueta de pluma, 1 par de luvas, polainas,  cadeirinha, capacete, botinha de trekking para a ”morena” e lanterna de cabeça.

Dia 3 – Sábado – Ataque ao Nevado Pisco 5760m – 12 horas – 1335m+

Estávamos positivos que íamos conseguir dessa vez. ( No ano passado tínhamos tentado, porém não  chegamos a 1/3 do percurso com um guia de uma agência barata, passamos mal da altitude).

Começamos a caminhada pela morena, que para mim, particularmente é a parte mais tensa, com pedras soltas. Um sobe e desce constante com obstáculos, passamos próximo à uma laguna até chegarmos no glaciar. A lua estava maravilhosa iluminando, quase não necessitava a lanterna. Ao longe víamos luzes vindas das montanhas como Chopicalqui, eram lanternas de montanhistas também subindo por lá. Naquela noite, umas 20 pessoas aproximadamente estavam tentando subir o nevado Pisco também e todos praticamente estavam com guia. Haviam equatorianos, franceses, brasileiros, argentinos e americanos. Rapidamente nos encordamos um no outro, colocamos as polainas e botas de trekking, seguramos os piolets e iniciamos a subida no gelo. Um passo depois o outro, a noite estava maravilhosamente sem vento, podíamos desfrutar mais do trajeto sem nos preocuparmos tanto com o frio. Foram cerca de 5 horas com algumas paradas para recuperar o fôlego, no glaciar. Alguma pessoas vimos desistir bem próximo ao cume, pelo mal da altitude.

Na metade da subida, com temperatura de -10°

Passamos por algumas gretas, que já tinham nos avisados para tomar cuidado. Foi nossa primeira vez olhando para elas. Não conseguíamos ver o fundo, de tão alto que era. Foi um pouquinho assustador, porém demos um passo maior e passamos tranquilos.

As finas e profundas gretas, no caminho haviam 3, umas mais estreitas que outras.

Faltando 100m de aclive, com o nascer do sol acontecendo, a temperatura caiu drasticamente para -10° e ficar parado era quase impossível, tinha alguns momentos em que doía as mãos e os pés de tanto frio. O Renan já estava mais ofegante que eu e parando muito,  então nos peguntamos, será que chegamos lá, ou aqui já está bom? Mas o nossa determinação  prevaleceu.

Quase chegando ao cume!

Algumas pessoas já estavam descendo e nos motivando a subir, então faltava pouco para sairmos da sombra e chegarmos aonde havia sol. Continuamos firmes, olhando aquela paisagem incrível e percebendo o quanto somos pequenos e frágeis diante daquela imensidão branca.

Nascer do sol alucinante com vista para Huandoy, 6360m.

O dia estava perfeito para subir a montanha.  Com uma ótima aclimatação, não podíamos nos deixar levar pelo psicológico fraco. Continuamos, um passo depois o outro, encravando os crampons no chão de gelo, respirando profundamente, dando uma distância entre nós dois de uns 10 metros, para corda ficar esticada e mais segura. O Renan chegou primeiro e ficou me olhando subir e me puxando pela corda. Quando cheguei no cume, chorei. Foi uma mistura de dor e de emoção, nos abraçamos ofegantes e realizados.

É Cume! Chegamos ao nevado Pisco, alegria transbordando no rosto! 5760m de altitude!

Com certeza um dos dias mais felizes de nossas vidas! A nossa parceria sempre fecha nos desafios!

Respirei fundo e pulei a greta! rsrs

Depois de um desnível de 1335m, contemplamos a vista de 360° mais espetacular que já presenciamos em toda nossa vida. A montanha mais alta que já estivemos juntos.  Foi uma alegria tão grande  ter chegado lá e ainda SOLOS E AUTOSSUFICIENTES! Foram vários dias antes desse feito com pessoas experientes que nos instruíram, aprendemos sobre equipamentos, lemos vários relatos, planejamos a rota e o checklist completo, praticamos nós e ancoragem, zelando muito pela nossa segurança.  Como temos já experiência em alta montanha com guias de montanhas de altitude anteriormente, acreditamos em nós, como guias de trekking para essa jornada. Aconselhamos que façam a sua alta montanha com um guia qualificado, invista na sua segurança!

Na descida eu fui na frente, sempre seguramos o piolet com a ponta afiada virada para montanha, se cair encravamos no chão. O Renan fica atrás para se caso precisar me segurar com a corda. A descida foi muito mais fácil do que eu imaginava.  Conseguimos tirar mais fotos impressionantes com a luz do dia. Chegamos na morena novamente às 9h, aproveitamos para comer um lanche. O curioso da altitude é que não sentimos fome, comemos somente para repor as energias.

E aqui é o final do glaciar, ficamos impressionados com essa caverna de gelo com suas estalactites derretendo aos poucos.

Retornando pela morena, mais um longo caminho com obstáculos que precisavam de atenção redobrada, principalmente porque na descida as vezes ligamos o piloto ”automático” e nos detraímos mais fácil. Todo cuidado é pouco nas pedras soltas.

Próximo ao glaciar, passamos pela laguna Matacocha à 4850m. Ainda tinha uma longa caminhada até o acampamento.

A Lição que tiramos dessa aventura: Podemos conquistar tudo o que queremos, basta ter fé e acreditar em si. E o mais importante que a resistência e boa aclimatação para essa jornada é ter  determinação;foco!

Chegamos no acampamento novamente às 13h, exaustos porém felizes pela conquista do dia. Ficamos descansando um pouco na barraca e logo já levantamos acampamento, precisávamos agilizar a descida pois os ônibus e colectivos passavam por ali até as 16h. A descida não foi nada fácil, nossos joelhos doíam! Conseguimos 2 lugares em um ônibus privativo, que estava esperando o grupo da trilha Laguna 69, (o lado direito da bifurcação) para voltar direto a Huaraz por 50 soles cada um.  Loucos por um banho, quando chegamos no hostel foi a primeira coisa que fizemos para renovar as energias!

Um desafio completado com muito sucesso!!! Pretendemos voltar para novas ascensões nos andes peruanos, essa foi nossa ultima aventura do ano de 2019 no Peru, mas em 2020 tem mais…AGUARDEM!

 

Bora com Casal na Montanha?

 

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