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No mesmo dia que terminamos a Travessia de Huayhuash, já estávamos pensando em qual seria a próxima montanha que iriamos escalar. Foi decidido durante o jantar de finalização com o grupo de Huayhuash que faríamos uma segunda tentativa de escalada em alta montanha. Essa ideia, surgiu de nossos amigos peruanos Ângela e Fernando. O desafio já havia sido escolhido: o cume do Nevado Pisco, com 5.752m.

O Nevado Pisco e a Laguna 69

PORQUE PISCO?

Pisco é o nome de uma bebida destilada peruana, muito apreciada. Por algum motivo esta montanha também ficou conhecida com este nome. Ela  foi conquistada em 12 de julho de 1951 por franceses. No caminho, os arrieiros nos contaram que os escaladores beberam grandes quantidades desta bebida para comemorar a conquista.

O LUGAR

Um dos cumes nevados de mais fácil acesso e mais escalados da Cordilheira Branca.  Esta montanha é usada como treinamento e aclimatação para outras montanhas de maior altitude e dificuldade. Exige o uso de todo equipamento de escalada como bota dupla com crampons, capacete, cadeirinha, cordas e ancoragens. No seu glaciar existem gretas na neve que podem ser perigosas.

Angela, Vanessa e Fernando

No dia anterior à viagem, marcamos um encontro com o casal de amigos para caminharmos pelo centro de Huaraz, atrás de uma agência que nos levasse a fazer esta expedição de alta montanha, no Nevado Pisco. Fechamos com uma agência que fez um ótimo preço, provamos e levamos nossos equipamentos alugados, para deixar a mochila montada e partir bem cedo no dia seguinte.

Alem de nossas barracas, saco de dormir, roupas, também levaríamos todo o material para a ascensão: botas de neve, grampones, poilet, cadeirinha e capacete que deixou a mochila mais pesada do que imaginávamos.

Saímos antes das 6h da manhã com uma van que nos buscou no hostel e na metade do caminho encontramos com o casal de amigos que também subiram na van. Vários mochileiros também estavam na mesma van indo ao norte de Huaraz, por 3 horas até o Parque Nacional de Huascarán. Atrás de nós estavam sentados indianos, ao lado franceses, mais atrás americanos. No caminho descobrimos que todos que estavam ali iam a Laguna 69, apenas nós 4 e os 2 guias iríamos em direção ao acampamento base do Nevado Pisco.

Em Huaraz, para ir a Laguna 69 é bem simples. Basta ir em qualquer agência no centro ou ou até mesmo pedir no hostel, que eles vão saber te indicar ou já tem à disposição o transporte. Há idas e voltas todos os dias para lá. Como é um passeio muito popular, os preços são bem competitivos, vale a pena pesquisar entre as agencias.

Os tours começam a sair às 5h da manhã de Huaráz e voltam por volta das 19h.

Leve lanche para o caminho: Sanduíches, chocolates e barras de cereal são muito bons para ajudar a ter energias para a subida e também diminuir os efeitos da altitude. Leve também pelo menos 1 litro de água.

Mochilas prontas para a aventura!

Durante o caminho de van, o guia explicava sobre o lugar em espanhol e inglês. Achei bem curioso saber sobre a tradução dos nomes quechuas dos cumes nevados e lagunas. Paramos primeiro para tomar um café em um restaurante em Yungay. O nosso pedido foi reforçado, ”pan con huevos revueltos”, nesse mesmo lugar havia uma criação de ”cuis”(é um tipo de porquinho da india) o bichinho é aberto e assado inteiro, um dos pratos mais conhecidos no Peru e dizem que é muito bom, mas não tivemos coragem de comer.

Nesse mesmo lugar encontramos fotos do desastre que aconteceu em Yungay. Na década de 70, houve um terremoto (de escala 7.9) que causou uma ruptura de uma imensa placa de gelo e rocha da montanha Huascarán. A cidade inteira foi soterrada pela avalanche, uma grande tragédia que matou cerca de 40 mil pessoas e devastou o “Callejon de Huaylas”.

Seguimos em direção ao vale Llanganuco com muita subida até chegarmos na entrada do Parque Huascarán, onde pagamos 150 soles para o ticket válido por 30 dias, a nossa ideia depois era voltar nesse mesmo parque e fazer o Trekking de Santa Cruz, valia a pena pegar o ticket mensal.  A Laguna Llanganuco ou Lagoa feminina (em quéchua) já nos impressionou com a sua cor azul esmeralda.

Paramos na primeira Laguna rapidamente para fazer umas fotos. O local fica as margens da estrada, e tem uma vista incrível.

Lagunas Llanganuco

Foram cerca de 3 horas de ônibus até o início da trilha à 3.900m. Fica bem numa curva, ao lado da estrada. Local difícil de estacionar e manobrar os carros. Descemos e atravessamos uma ponte com um rio bastante caudaloso e logo chegamos a um descampado com a bifurcação.

Partiu Camping Base Nevado Pisco

Esse foi o ponto de bifurcação, à direita Laguna 69 e à esquerda Camping Nevado Pisco .

Foram cerca de 3 horas de subidas em zigagues até o camping. Com a mochila pesada, não foi fácil. Chegamos no acampamento próximo do meio dia, com sol forte.

Onde estávamos…

Entramos na barraca para descansar, pensamos que haveria um almoço feito pelos guias, mas na verdade só houve um café e uma janta mais tarde. Estávamos com fome e comemos um lanchinho que havíamos levado de reserva. Ovos de codorna e depois manga seca que compramos no mercado de Huaraz.

Lá temos a vista do Pico Huandoy 6360m e o imponente e tão esperado Nevado Pisco, 5.752m. A paisagem é bem seca, com muitas pedras enormes que se desprenderam e rolaram montanha a baixo com o tempo. E era por ali mesmo que as trilhas seguiam.

Caminhamos pelos arredores e é muito comum ver ”biscatchas” ( parecido com lebres) tranquilas por cima das pedras.

Eu Vanessa, estava bem preocupada pois havia esquecido meus óculos de sol, algo imprescindível para acensão a um nevado. Mais acima havia o Refúgio Pisco, os guias me disseram para tentar um óculos emprestado lá! E não é que consegui? Fiquei mais tranquila.

O óculos emprestado até combinou com meu fleece!

A noite tivemos apenas sopa servidas pelos guias, nós não estávamos entendendo o porque de tão pouca e leve comida.

Era 21h e eu ainda não tinha conseguido dormir, esta foi a ultima foto que tirei antes de entrar na barraca.

A noite não conseguimos dormir muito bem e quando parecíamos pegar no sono, os guias nos chamaram. Já sentíamos nosso estomago meio “embrulhado” desde o final da tarde.

Com apenas 3 horas de sono mal dormida, nos levantamos, colocamos a roupa de trilha, tomamos um rápido mate de coca. Colocamos a mochila de ataque e a lanterna de cabeça e começamos a caminhada rumo ao cume do nevado Pisco.

No começo já tem uma grande subida intensa, pela ”morena” (trechos de imensas pedras expostas, sem neve).

Logo no inicio, na metade da primeira subida eu Vanessa, comecei a me sentir muito mal, tive que parar no meio da trilha para vomitar, estava fraca.

Foi algo realmente constrangedor para mim, porém os guias e quem já está acostumado a subir alta montanha dizem que é comum ver pessoas assim. Depois eu fui obrigada a ir atrás de umas pedras, não pude esperar nem um segundo para fazer o numero 2. Na altitude é muito comum sentir flatulências, mas quando você se alimenta de forma inadequada é pior ainda, que foi meu caso. 🙁

Depois de umas 4 paradas, já estava sem forças para continuar, o guia que estava comigo atrás, me disse que era melhor voltar. Mas eu fiquei um tempo ali sentada numa pedra e quando parecia estar melhor resolvi continuar. E o resto do pessoal já estava bem na frente. Estava ficando tarde e dependendo a hora não iria mais chegar ao cume. E não tinha mais forças para subir. Só eu Vanessa e o guia que fechava a trilha ficamos para trás.

Cheguei em cima do primeiro passo e logo teríamos que baixar por um caminho um tanto perigoso. Era uma descida praticamente vertical com uma comprida corrente pendurada , havia pedras expostas, que pareciam cair a qualquer momento. O guia me avisou que teríamos de passar bem rápido, pois é perigoso de rolar pedras a baixo (imagina o tamanho dessas pedras :o) Eu desci não muito rápido devido a minha fraqueza. Andamos por um trecho plano, mas devido a ”morena’‘ caminhávamos mais lentos, pulando de uma pedra à outra. Depois de meia hora, começou tudo de novo, vomito e diarreia. Aí percebi que não poderia insistir mais e com o incentivo do guia, voltamos ao acampamento.

Eu não estava entendendo, como eu já estava acostumada com a altitude de Huayhuash, posso ter sofrido tanto nessa. Diziam ser mais fácil que o nevado Diablo Mudo que havíamos feito. E o guia me perguntou se eu comi algo diferente, ai descobri o porque. Além de ter voltado a Huaraz, ficado 2 dias mais a baixo, também comemos frutas secas como manga, ovos, pão até encher a pança. O correto seria ter comido apenas aquilo que os guias haviam oferecido. E no meio do caminho tomar uma café mais reforçado. Na altitude a digestão fica mais lenta.

Quase chegando na parte da corrente, de longe vemos uma lanterna se aproximando, esperamos para ver quem era, gritei e o Renan respondeu. Ele também havia passado mal, da mesma forma que eu. Então apenas nosso casal de amigos continuaram. Voltamos tranquilos para a barraca, com a sensação de ser a melhor alternativa para nós. Estávamos nos sentindo fracos e nem com a maior força de vontade conseguiríamos chegar ao cume naquela noite. Não conseguimos nem chegar ao glaciar. Caminhamos menos de 6km até desistir.

Depois de não dormir nada na noite anterior, dormimos como anjos, ainda com uma sensação de estomago estragado.

Quando o dia clareava, lá pelas 6 h aparecem o guia, Fernando e Ângela. Nos contaram que chegaram próximo a neve e desistiram pois Ângela também estava um pouco com dor de barriga e Fernando com calos no pé. E outro fator é que já estavam muito atrasados para chegar até as 9h, que é o horário limite para retornar. Depois desse horário o sol bate forte na montanha e é muito comum acontecer avalanches e a neve fica mole para caminhar, por este motivo quem faz acensão em alta montanha vai sempre durante a madrugada.

Sem nem ter chego perto do cume, ficamos na barraca até as 10h na manhã seguinte

Tomamos o ”Desayuno” de avena, bolachas e chá de coca e ficamos descansando na barraca pela manhã, um pouco tristes por não ter conseguido fazer a subida. Os guias, e o casal Fernando e Ângela iriam baixar e retornar a cidade às 11h.

Para não perder a ida ao Parque Nacional de Huascaran e explorar melhor o local onde estávamos, Renan encontrou no GPS um caminho que nos levaria até a Laguna 69. Conversamos com os guias e o casal e resolvemos continuar sem eles por essa nova rota, à direita, depois do Refúgio Pisco. Ficamos até às 13h descansando, nos recuperando do mal da noite anterior. Conseguimos despachar os equipos de alta montanha pelos guias, para seguir mais leve.

Após nos despedimos fomos conhecer o Refúgio Pisco, logo acima do acampamento.

Refugio Pisco

Caso alguém tenha interesse em conhecer esta é a tabela de valores em agosto/2018.

Tabela de preços no Refúgio Pisco

Após conhecer o refúgio continuamos subindo outra ‘morena’, passamos por outras lagunas, muito sobe e desce por um terreno de pura pedra, porém com um visual incrível das montanhas Huandoy, Chacraraju, Pisco e Huarascan.

Quase no passo de montanha, Huandoy ao fundo
Casal na Montanha solos

A caminhada foi mais longa que imaginávamos e chegamos à Laguna já era quase noite. Então decidimos fazer um ‘acampamento de emergência’ as margens da Laguna 69.

Um paraíso para os nossos olhos, não dava pra acreditar que estávamos ali, um dos destinos mais procurados pelos trekkers do mundo inteiro, como havíamos chegamos um pouco antes do por do sol, a Laguna foi só nossa! Um dos acampamentos mais loucos de nossa vida! 😀

Montamos a barraca e tiramos várias fotos daquela paisagem que dá arrepios de tão bonita. A cor azul brilhante dessa Lagoa, com o imponente nevado de fundo é realmente surreal.

Nevado Chacraraju

PORQUE O NOME LAGUNA 69?

Não há nenhuma fonte confiável do porque desse nome. Uma das explicações, é que a na contagem das lagoas do parque ela foi a numero 69. Lá os guias contam que há uma lenda de uma mulher que nunca conseguia engravidar. Já estava com 40 anos e o casal já estava ficando preocupado. Aí em uma noite, a mulher sonhou com uma visão de que ela deveria cavar um buraco no gelo e mergulhar 7 vezes na laguna      (no tempo em que a laguna era congelada) o ritual deu tão certo que conseguiu engravidar 12 vezes seguidas. A lagoa então passou a simbolizar a fertilidade, devido a posição sexual 69.

Fizemos aquela janta especial na laguna com macarrão e molho de strogonoff e fomos dormir como anjos, escutando o baralho das avalanches.

Acordamos logo cedo, tomamos o café e guardamos acampamento.

Laguna 69

Descemos via trilha tradicional de Laguna 69. O caminho é bem demarcado, difícil de se perder. Somente na metade do percurso que encontramos um pessoal com guia subindo, e depois outro grupo, alguns solos e assim fomos indo, descendo ao lado do rio, algumas vaquinhas pastavam tranquilamente. O silêncio da natureza e a beleza da trilha também nos encantou bastante.

Nevado

Na volta chegamos super cedo e descobrimos que os ônibus para retorno seria só a tarde. Ficamos esperando, esperando até que decidimos caminhar pela estrada. Encontramos um táxi que nos ofereceu retorno até Yungay por 60 soles, então falamos que só tínhamos 40, como já estávamos cansados, resolvemos aceitar a proposta. (Sempre tente pedir descontos,  pois os taxistas sempre cobram a mais de turistas. E também consulte o preço antes de embarcar ).

Voltamos trocando uma ideia com o taxista e quando chegamos lá, pegamos o primeiro ônibus e retornamos a Huaraz, um pouco tristes por não ter chegado ao Pisco, mas felizes pela Laguna 69.

FIM.

 

E vocês acham que nossa aventura acabou por aqui?

Fomos descansar um pouco no hostel para mais uma aventura: O TREKKING SANTA CRUZ.

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